*Dedicado a alguém que vai saber que é pra ela
Ensaiava uns passos com pontas dos pés no ar, jogos de corpo que enunciavam uma década. O som que saía daquele corpo, que não havia passado por nenhuma academia de dança, mas que dançava com gestos e jeitos oitentistas, ia de Michael Jackson a Madonna, passando por A-ha e Freddie Mercury. Tinha uma sensualidade, uma natureza tão viva, um despudor que não pertencia àquela família. Ela gostava de dormir nua, ela tinha cabelos longos e pretos, esses cabelos já mostravam a diferença, porque quando se balançavam no ar, ela mostrava o que não cabia naquele núcleo. Saiu de casa como quem vai a um passeio de férias, e ficou. Foi estudar na capital, morou na casa de quem um tanto simpatizava com sua liberdade de ser um jeito de corpo mais presente, uma alma angustiada de não ser ouvida. Curtiu aquela juventude como quem peca, mas dançava e fugia de noite com a inocência de quem só pensava na felicidade. Era muito menina, porque a malícia da vida na cidade não aprendera com seus pais, aprendera somente a ser a ponta-de-rama, a quase caçula, o brinquedinho de vestir e enfeitar. Mas, ela cresceu, era boa em matemática, queria saber dos números, se misturar com os homens, mas era muito mulher e por ser tão nova, precisava dar-se jeito de gente, e foi estudar outras coisas. Lá conheceu um pecado de amor, parecia fogo conservado na brasa, que vai ardendo e sendo calor. Juntou o corpo que dançava ao rapaz mais bonito da turma, era amor, e ódio. Descobriu a tempestade do corpo, e do verbo. Disse tantos impropérios, aprendeu todos os palavrões, amou e renegou o ser amado. Até que apanhou na cara. Mas, a menina de fita, a moça de polainas tinha família grande, tantos irmãos, um pai, e estava buchuda, carregando nos braços já o primeiro rebento. Deixou pra trás aquele sonho de sua idade, de juntar sua mão na dele, e foi carregando desilusão e contas pra pagar, foi viver olhando pra frente. Ainda gostava de dormir nua, mas seu corpo havia mudado ligeiramente, era mãe, agora precisava encontrar um jeito de crescer, de ser tronco de árvore pros frutos. Ainda tinha longos cabelos negros, ainda sabia colocar a perna no alto alongada, mas vestia ternos, corria e dormia só meia hora. Os palavrões demorou a esquecer, os sonhos ainda pintava nos panos de prato em forma de flor, mas ria um pouco menos e sentia muita dor nos ossos. Encontrou um outro amor e esse parecia entender de caminhar, foram viver noutras terras, e ergueram um lar, até cachorro tinham. Ela parece rir um tanto menos, e todo domingo vai ao encontro de um Deus. Agora dança mais com a voz, brinca de artista pra não apagar o passado de vez. E tem cabelos longos ainda, que já foram loiros até... O corpo, mais contido, dança só pra dizer seu nome, esse corpo que é mãe e é mulher.

2 voz(es):
Mesmo sabendo que é pra um alguém "real", não deixa de lado a beleza da prosa poética como método (meio) para enxergar esta estória singular. E que bom que ainda dança.
Que bom que ainda dança!
;)
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